Notas sobre o Livro das Mutações

Publicado em 27 de setembro de 2026

Notas sobre o Livro das Mutações

I Ching: O caminho através dos milénios. História do «Livro das Mutações»

Entre todos os grandes textos que a antiguidade nos legou, poucos se podem comparar, em profundidade, enigma e influência, com o «Livro das Mutações» chinês — o I Ching. Não é apenas um tratado filosófico nem um livro de adivinhação vulgar. É a tentativa de uma mente antiga de codificar o Universo, de encaixar a infinita mutabilidade da vida num sistema matemático e simbólico rigoroso.

A sua história não foi escrita por uma só pessoa. Foi criada ao longo de séculos, absorvendo mitos, o suor dos governantes, a sabedoria dos filósofos e a cinza das bibliotecas queimadas.

Capítulo 1. A carapaça da tartaruga e o olhar para o céu

Segundo as tradições chinesas, a história do I Ching começa muito antes da escrita, na era do mítico imperador Fu Xi (cerca de 2800 a.C.). A lenda conta que um dia o soberano se encontrava na margem do Rio Amarelo. Contemplava os desenhos do céu estrelado, estudava as pegadas das aves na areia, as linhas das montanhas e o curso das águas. De súbito, das águas do rio emergiu um mítico cavalo-dragão, nas costas do qual estavam inscritos sinais estranhos.

Iluminado por essa visão, Fu Xi criou oito trigramas (ba-gua) — combinações de três traços contínuos (Yang) e interrompidos (Yin). Estes oito símbolos tornaram-se o alfabeto da criação: Céu, Terra, Trovão, Vento, Água, Fogo, Montanha e Lago. Neles estava encerrada toda a natureza das coisas, a fluir de um estado para outro.

Séculos depois, na dinastia Shang, os sacerdotes usavam estes conceitos para adivinhar. Aplicavam varas de bronze em brasa às carapaças de tartaruga e às omoplatas de boi, e nas fissuras que se formavam liam a vontade do Céu. Era a era de uma magia crua e primitiva, da qual devia nascer um grande texto.

Capítulo 2. O prisioneiro que criou o Universo

O aspecto clássico do livro, composto por hexagramas (seis traços), consolidou-se num dos períodos mais sombrios da história da China — no declínio da cruel dinastia Shang (cerca de 1046 a.C.).

O governante das terras ocidentais, Wen Wang, homem de inteligência vasta e de justiça, provocou a ira do tirano Di Xin. Wen Wang foi lançado na prisão da cidade de Youli. Os anos de reclusão poderiam ter-lhe tolhido a razão; em vez disso, o prisioneiro voltou-se para a liberdade interior.

Na penumbra da sua cela, Wen Wang tomou os oito trigramas antigos de Fu Xi e começou a sobrepor-los. Oito por oito — 64 hexagramas. Cada um descrevia uma situação concreta da vida, uma fase de desenvolvimento ou de decadência. Wen Wang lhes deu nomes e escreveu, para cada um, aforismos breves e nebulosos, cheios de alusões poéticas a dragões que atravessam o rio a vau e a poços sem água.

Mais tarde, o seu filho, o duque de Zhou, completou a obra do pai. Redigiu interpretações para cada traço individual (yao) no interior dos hexagramas. Assim, a magia das fissuras nas carapaças de tartaruga transformou-se no «Zhou Yi» — as «Mutações [da era] Zhou», texto repleto de moral e de estratégia.

Capítulo 3. Asas para o Dragão

Passaram séculos. Chegou a era das Primaveras e Outonos — tempo de guerras e de florescimento da filosofia. Nesse período, o maior sábio da China — Confúcio (Kong-zi) — voltou-se para o «Livro das Mutações».

A tradição diz que Confúcio estudou o I Ching com tal assiduidade que as tiras de couro que prendiam as lâminas de bambu do rolo se desgastaram e se romperam três vezes. Antes de Confúcio, o I Ching era sobretudo oráculo. Depois dele — tornou-se profundo sistema filosófico.

Atribui-se a Confúcio e aos seus discípulos a redacção do «Shi Yi» — as «Dez Asas». São comentários que explicavam o sentido oculto dos hexagramas através da moral, do dever, da cosmologia e do conceito de Yin e Yang. As «Dez Asas» elevaram o I Ching aos céus, transformando um manual de adivinhação com hastes de milefólio num espelho da harmonia universal.

Capítulo 4. O fogo e a cinza do Império

Em 213 a.C., o cruel unificador da China, o imperador Qin Shi Huang, decretou uma ordem que fez estremecer todos os eruditos: queimar todos os livros filosóficos e históricos, para que a história começasse apenas com ele. Milhares de rolos transformaram-se em cinza; centenas de estudiosos foram enterrados vivos.

Mas o I Ching sobreviveu.

O decreto imperial continha uma pequena ressalva: os livros de medicina, de agricultura e de adivinhação não estavam sujeitos à destruição. Como o «Livro das Mutações» figurava formalmente nos arquivos como obra mântica (adivinatória) de referência, foi poupado. Graças a esse acaso burocrático, o maior monumento do pensamento ultrapassou o genocídio cultural e chegou à dinastia Han, onde foi canonizado como uma das obras mais importantes do confucionismo.

Capítulo 5. O caminho para o Ocidente e o código binário

Os europeus conheceram o I Ching pela primeira vez no século XVII, graças aos missionários jesuítas. Esse encontro teve consequências surpreendentes na ciência ocidental.

O grande matemático Gottfried Wilhelm Leibniz, criador do sistema de numeração binária (base de todos os computadores modernos), recebeu certa vez uma carta do jesuíta francês Joachim Bouvet. À carta seguia-se um esquema dos hexagramas do I Ching. Leibniz ficou maravilhado: na alternância de traços contínuos e interrompidos viu a ilustração perfeita do seu sistema binário — zeros e uns! Os antigos chineses, sem o saber, descreveram matematicamente o mundo milénios antes do advento da informática.

No século XX, o livro ganhou nova vaga de popularidade no Ocidente graças à tradução de Richard Wilhelm. O célebre psicólogo Carl Gustav Jung, que escreveu o prefácio dessa edição, viu no I Ching confirmação da sua teoria da sincronicidade — coincidência não casual de acontecimentos ligados não por relação de causa e efeito, mas por sentido interior profundo.

Conclusão: A eterna mutabilidade

Hoje, mais de três mil anos depois, o «Livro das Mutações» continua nas estantes de milhões de pessoas em todo o mundo. Recorrem a ele empresários em busca de conselhos estratégicos, escritores à procura de inspiração (como, por exemplo, Philip K. Dick ao escrever «O Homem do Castelo Alto»), psicólogos e filósofos.

O I Ching ensina-nos a lei suprema do Universo, que paradoxalmente se exprime assim: a única coisa que permanece inalterável neste mundo são as próprias mutações. E enquanto o mundo continuar a mudar, os antigos hexagramas de Wen Wang continuarão a reflectir a sua dança infinita de Yin e Yang.