O sussurro dos séculos: a jornada das cartas de tarot através do tempo

Publicado em 28 de setembro de 2026

O sussurro dos séculos: a jornada das cartas de tarot através do tempo

Sussurros dos séculos: A viagem das cartas do Tarot através do tempo

Quando contemplamos as imagens policromas e enigmáticas das cartas do Tarot, a imaginação, complacente, desenha quadros de uma antiquíssima origem: sacerdotes nos templos do Antigo Egipto, que ocultam do profano o saber secreto, ou carroças ciganas a ranger pelas estradas empoeiradas da Europa medieval. A verdadeira história destas cartas, depurada do véu da mistificação, revela-se, porém, tão fascinante quanto as lendas mais audazes.

Primeiro acto: O luxo do Renascimento italiano

Ao contrário dos mitos populares, o Tarot não nos chegou das paredes das pirâmides egípcias. O seu berço foi o Norte de Itália, no princípio do século XV — época do Renascimento inicial, tempo de florescimento das artes, de intrigas e de um luxo sem precedentes.

No princípio, estas cartas não tinham qualquer relação com a previsão do futuro. Tratava-se de um passatempo de salão para a aristocracia, um jogo de cartas conhecido como Tarocchi (Taróqui) ou Trionfi (Triunfos). As famílias mais abastadas da época, como os duques milaneses Visconti e Sforza, encomendavam a artistas baralhos únicos. As cartas eram pintadas à mão, cobertas de folha de ouro e custavam uma fortuna.

A estrutura do jogo já então se aproximava da actual: quatro naipes (espadas, copas, moedas e paus) e cartas de triunfo especiais, ornadas com figuras alegóricas — a Morte, o Amor, a Roda da Fortuna. Estas imagens não eram cifras secretas; representavam arquétipos e virtudes cristãs inteligíveis para qualquer pessoa culta da época. O Tarot era espelho do seu tempo, reflectindo a cosmovisão do nobre italiano.

Segundo acto: A reviravolta oculta na França

Passaram três séculos. As cartas do Tarot espalharam-se pela Europa, transformando-se de obra de arte exclusiva em jogo popular, impresso em cartão barato (o mais célebre foi o assim chamado baralho de «Marselha»). E então, no final do século XVIII, surgiu uma reviravolta inesperada.

A França estava à beira da revolução, e as mentes do público ilustrado estavam presas à mistica, aos maçons e aos enigmas do Oriente. Em 1781, o maçon e erudito suíço Antoine Court de Gébelin publicou a sua obra em vários volumes «O Mundo Primitivo». Nela declarou, sem apelação, que o Tarot não era outra coisa senão o sagrado «Livro de Thoth», salvo das bibliotecas em chamas do Antigo Egipto. Apesar de os hieróglifos egípcios ainda não estarem decifrados na época, e de a teoria de Gébelin não repousar em fundamentos científicos, a semente caiu em terreno fértil.

A estafeta foi recolhida por Jean-Baptiste Alliette, antigo negociante de cereais que adoptou o pseudónimo Etteilla (o seu apelido lido ao contrário). Tornou-se o primeiro tarólogo profissional da história, concebeu o primeiro baralho destinado especificamente à adivinhação e publicou manuais pormenorizados de interpretação das cartas. Foi Etteilla quem ligou para sempre o Tarot à astrologia e à predição do destino. As cartas passaram a falar a língua do futuro.

Terceiro acto: O misticismo britânico e o nascimento da lenda

A verdadeira revolução que definiu o aspecto moderno do Tarot ocorreu na viragem dos séculos XIX e XX, na Londres enevoada. As cartas caíram nas mãos de membros da Ordem Hermética da Aurora Dourada — sociedade secreta dedicada ao estudo da magia, da alquimia e da cabala.

O ocultista francês Éliphas Lévi tinha, antes disso, associado com brilhantismo os 22 Arcanos Maiores do Tarot às 22 letras do alfabeto hebraico e à Árvore da Vida. Mas os britânicos foram mais longe. Em 1909, o destacado membro da Ordem Arthur Edward Waite concebeu a criação de um novo baralho. Confiou essa tarefa à artista Pamela Colman Smith, mulher de visão singular e talento vasto.

A sua criação conjunta, hoje conhecida como o baralho Rider-Waite-Smith, representou uma ruptura. Pela primeira vez na história, todas as 78 cartas, incluindo os «Arcanos Menores» (cartas numeradas), receberam ilustrações narrativas detalhadas. Se antes a «Três de Espadas» se reduzia a três lâminas desenhadas, agora era um coração traspassado por três espadas, contra um céu de trovoada. Essa clareza visual e essa profundidade psicológica tornaram o baralho de Waite o mais popular do mundo, inteligível sem a memorização de tratados ocultos complexos.

Epílogo: O espelho da alma humana

No século XX, o Tarot aguardava uma nova transformação. Graças à obra de Carl Gustav Jung, as imagens das cartas passaram a ser vistas não como instrumento mágico de previsão do futuro, mas como conjunto de arquétipos humanos universais.

Hoje o Tarot é um caleidoscópio de significados. Para uns continua a ser oráculo místico; para outros, instrumento de autoconhecimento, diário visual ou cartas metafóricas que ajudam, numa consulta com psicólogo, a olhar para o próprio subconsciente. E para artistas de todo o mundo, criar o seu próprio baralho de Tarot tornou-se modo de exprimir a sua visão do mundo.

Tendo iniciado o caminho como brinquedo dourado dos aristocratas italianos, o Tarot transformou-se em linguagem universal de símbolos na qual a humanidade prossegue o diálogo consigo mesma.